Quero discutir alguns pontos a respeito
desses protestos no Rio de Janeiro que acho, merecem a nossa atenção.
Entendo que, possivelmente, os mesmos pontos se
aplicam a outras capitais e, até mesmo a cidades menores onde esse fenômeno
social "o protesto" já se tornou uma constante, mas procurarei me
deter aos fatos ocorridos no Rio de Janeiro, pois é onde os estou vivenciando.
Três aspectos me intrigam: os black blocs,
as pautas dos protestos e a crítica generalizada à atuação dos policiais.
Comecemos pelos black blocs. Quem são eles?
idealistas? bandidos? anarquistas? fantoches de alguma ideologia? empregados de
alguem que quer gerar instabilidade? pessoas que se cansaram das mazelas
do nossa cidade/nosso país? manipulados?
Gostaria que fossem idealistas ou um grupo que se
cansou dos problemas e resolveu deixar isso claro, pois seria mais fácil
compreendê-los, mas a prática não me deixa ter essa ilusão, afinal o que pensar
de quem esconde rosto, anda em bando e toca o terror por onde passa?
No 2o semestre de 2013, praticamente, não foi
possivel trabalhar integralmente no centro da cidade, pois posso dizer sem medo
de errar que foram mais dias de protestos do que sem nenhum desses
eventos. Então se não fomos dispensados mais cedo, estávamos preocupados
se conseguiríamos chegar em casa.
Muitas vezes saí do trabalho mais cedo e vi o
centro da cidade deserto. Imagine tal situação em uma metrópole. Com certeza
quem pode, não pensou duas vezes e tomou o rumo de sua casa, afinal,
diretamente relacionado aos protestos estavam as depredações. Desafio a
qualquer um contar quantas vidraças, portas de vidro e fachadas foram
quebradas.
Eu diria que o percentual passou de 80% dos
imóveis, principalmente, nas ruas principais. O centro do Rio ficou irreconhecível.
Podem até alegar que destruíram agências
bancárias que são símbolos do capitalismo. Estão mentindo. Foram repartições
públicas, lojas, prédios em construção, escritórios. Qualquer um pode caminhar
por lá e ver isso, pois até hoje, muitos estão com tapumes.
Os reflexos desses episódios foram prejuízos para
a economia, afinal muitas empresas fechavam as portas mais cedo ou o consumidor
evitava ir ao centro. Acredito que o único negócio que prosperou nesse período
foi o das vidraçarias. É a lei da oferta e procura. Não tem como fugir disso,
tanto é que gostaria de fazer um estudo comparando os seus preços e prazos de entrega antes e depois desses eventos.
Sem contar a nossa sensação de insegurança.
Alguns amigos até se empolgaram com as primeiras manifestação e
acreditando que o gigante havia acordado, quando eram dispensados ou
saíam do trabalham, iam para a passeata, mas não demorou muito e eles
também passaram a procurar o caminho para suas casas. Posso dizer que hoje não conheço
ninguém que diga que está indo a uma passeata.
Associadas a esses protestos, estão as causas
defendidas. As mais citadas são: copa e aumento das passagens. Combate a
corrupção também é citado, mas não posso dizer que percebo muita força nessa
luta.
Está bem. Vamos analisar as duas pautas
principais. Para começar, desculpem a minha ignorância, mas onde eu perdi o fio
da meada? Não é o Brasil o pais do futebol e que para em época de copa? A
escolha do Brasil como sede da copa não foi comemorada nas ruas? O brasileiro
não é acolhedor com os seus visitantes? Todo mundo não sabia que com a copa
seria necessário fazer muitas obras, inclusive, o seu legado foi uma das
motivações para tanto a quererem aqui?
Pois bem, agora tudo isso parece uma ilusão. Ou
seria eu a única iludida? Concordo e lutaria por contas transparentes, para não haver desvio de recursos e licitações
superfaturadas, mas promover quebra-quebra? Gerar instabilidade? O que se
irá conseguir com essas atitudes? Não seria mais adequado analisar os
documentos que são disponibilizados? Exigir informações melhores,
analisa-las, ver o que realmente está acontecendo e denunciar os
contraventores?
Vocês sabiam que a Lei nº 12.527, de 18 de
Novembro de 2011, assegura o direito fundamental de acesso à informação? Que o
artigo 5º, LXXIII, da Constituição
Federal assegura que qualquer cidadão é parte legítima para propor ação
popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de
que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio
histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas
judiciais e do ônus da sucumbência?
Agora vem o que acho mais polêmico e
contraditório. Os protestos contra o aumento das passagens e pior, a luta pela
tarifa zero. Fala sério! Isso não pode ser verdade.
Vejamos: concordo que a qualidade dos transportes
públicos podem e devem melhorar, mas não é incoerente quebrar ônibus, barcas,
trem, metrô porque eles estão atrasados ou há poucos para atender à população?
Critiquem-me se eu estiver errada, mas se eu quebro um desses meio de
transporte não haverá menos 1, 2, 3 ou mais que não poderão circular, o que só agrava a situação atual?
Outra coisa: No Rio de Janeiro (cidade e região
metropolitana) funciona o bilhete único que nos serviços de transporte
intermunicipal, para ser utilizada em no
máximo 2:30h (duas horas e meia), com 01 transbordo e com valor de tarifa
fixado em R$ 4,95. Já na capital a tarifa é de R$ 2,75.
Hoje a tarifa foi aumentada na capital
para R$ 3,00. Não vi a planilha de custos, mas em uma conta simples verifica-se
que é um aumento de 9%. Possivelmente para repor perdas da inflação e custos
com dissídios dos profissionais do transporte rodoviário, combustível e troca
da frota. A propósito, com exceção de algumas poucas linhas, os ônibus que
atendem ao centro do Rio são novos e modernos.
Concordo que não deveria haver exceções e o
padrão centro da cidade deveria ser repetido nos bairros menos favorecidos, mas
não posso garantir que isso aconteça ou não. Além disso, mais uma vez concordo com
a transparência e lisura das contas, mas não acredito que será o quebra-quebra que
garantirá isso.
E essa história de tarifa zero. Ainda não consegui compreender de onde surgiu essa ideia e o seu propósito. Como assim? Ninguém pagará nada pelas passagens? Quem
irá arcar com os custos? Aumento de impostos? Quem irá gerir esse serviço? O governo?
Por um acaso, alguém se lembra dos ônibus da CTC? Eu peguei o final deles aqui no
Rio e posso dizer que eram sucateados, como todos os serviços controlados pelo
governo, ou alguém já se esqueceu como era o serviço de telefonia?
Por fim, temos a crítica generalizada à atuação
da polícia nos protestos. Alguém pode me explicar qual seria a atitude adequada
desses profissionais? Se são omissos os criticam, se agem também o fazem. Qual
seria a 3ª opção?
Pensem: a mesma polícia que foi elogiada quando
começou a implantação das UPPs e, em especial, a tomada do morro do alemão
agora está sendo massacrada. Sem contar que quando essa polícia tem que
deslocar seu efetivo para atuar nas manifestações, algum outro lugar vai estar
descoberto. É surpresa para alguém os índices de crimes terem aumentado?
Será que se não fôssemos tão hostis, os policiais não teriam outra atitude
conosco? Se as manifestações fossem realmente pacíficas, os policiais usariam bombas de efeito moral e gás lacrimogênio?
Mal policial tem que ser punido, mas vocês não
acham que a grande maioria está ali para fazer o seu trabalho, tem uma família
em casa os esperando e correm tanto risco, que a probabilidade de não voltarem
para casa é enorme? Quanto você aceitaria ganhar por mês para ficar na linha de
frente de pedras e rojões? Como você se sentiria se fosse acusado de ter jogado
uma bomba que atingiu um jornalista que está em coma, quando na verdade depois
ficou demonstrado (graças a uma TV russa) que os fatos eram bem diferentes.
A propósito, quem está errado? O policial que
está ali na linha de frente nos defendendo e ao nosso patrimônio ou os blacks blocs que estão atacando ou os
jornalistas que não param de publicar notícias criticando-os ou até mesmo aqueles
que servem de testemunha ocular (vejam o que esse jornalista Bernardo
Menezes fez no episódio do dia 06/02/2014, mas não tenho dúvidas que outras
testemunhas semelhantes existiram e existirão)?
É, são muitas inconsistências. Quem está certo ou
errado? Estamos defendendo o que é certo ou estamos indo numa onda sem saber o
destino?
Temos que refletir, mas concluir e agir
corretamente. Não dá para continuar da forma atual, pois as ações
não são lógicas. Pensem!
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